Entre a aristocracia cafeeira mineira e a Era Vargas
Juiz de Fora, 24 de dezembro de 1885 - 6 de outubro de 1949
Pesquisa e Acervo: Pedro Lorenzo Raggio Neto
João de Rezende Tostes (Juiz de Fora, 24 de dezembro de 1885 - 6 de outubro de 1949) foi advogado, fazendeiro e político brasileiro. Foi eleito deputado federal por Minas Gerais em 1934, exercendo mandato entre 1935 e 1937 pela legenda do Partido Progressista de Minas Gerais, até a dissolução do Congresso Nacional com o golpe do Estado Novo.
Destacou-se pela forte proximidade com Getúlio Vargas e pelas frequentes visitas presidenciais à Fazenda São Mateus, em Juiz de Fora, propriedade da família que se tornou importante espaço de articulação política durante a década de 1930.
Filho de Cândido Bernardino Teixeira Tostes, um dos maiores cafeicultores de Minas Gerais e presidente do Banco de Crédito Real de Minas Gerais, pertenceu à aristocracia cafeeira da Zona da Mata Mineira.
Foi pai de Lahyr Paleta de Rezende Tostes, deputado federal constituinte em 1946, e sogro de Ilka Maria de Andrada Tostes, filha de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, conectando a família Tostes à histórica linhagem política dos Andradas.
Informações compiladas por Pedro Lorenzo Raggio Neto.
João de Rezende Tostes nasceu em 24 de dezembro de 1885, em Juiz de Fora, filho de Cândido Bernardino Teixeira Tostes e Maria Luiza de Resende.
Pertencia a uma das famílias mais influentes da Zona da Mata Mineira. Os Tostes consolidaram fortuna e prestígio político durante o ciclo do café, integrando a aristocracia agrária que exerceu forte influência econômica e social em Minas Gerais entre o final do século XIX e as primeiras décadas da República.
Seu pai, Cândido Tostes, destacou-se como um dos maiores cafeicultores do estado, proprietário rural, industrial e presidente do Banco de Crédito Real de Minas Gerais. Conhecido como "Rei do Café", tornou-se símbolo da prosperidade cafeeira mineira.
Pelo lado materno, João Tostes descendia de tradicionais famílias ligadas à formação política e econômica de Juiz de Fora durante o Império. Sua mãe, Maria Luiza de Resende, era filha de Geraldo Augusto de Resende, primeiro e único Barão do Retiro, vereador, Agente Executivo (prefeito) e presidente da última Câmara Municipal de Juiz de Fora no período monárquico.
O Barão do Retiro era filho de José Ribeiro de Resende, primeiro e único Barão de Juiz de Fora, importante proprietário rural, presidente da Câmara Municipal e uma das principais figuras políticas da cidade no século XIX, agraciado com o título nobiliárquico por Dom Pedro II em 1881.
Naquele período, Juiz de Fora consolidava-se como um dos principais centros econômicos de Minas Gerais, reunindo forte atividade industrial, produção cafeeira e intensa influência política regional.
Através dessas conexões familiares, os Tostes relacionavam-se diretamente às elites agrárias, políticas e econômicas que exerceram grande influência sobre o desenvolvimento da Zona da Mata Mineira entre o Império e a República.
João de Rezende Tostes casou-se com Carmen Sílvia Paleta de Rezende Tostes, filha de Constantino Luís Paleta, advogado, jornalista e deputado federal constituinte em 1891.
Por meio dessa união, aproximou-se de outra importante família ligada à vida política de Juiz de Fora nas primeiras décadas da República. Carmen Sílvia também era neta de Heinrich Wilhelm Ferdinand Halfeld, engenheiro alemão reconhecido como uma das figuras fundamentais para a formação e desenvolvimento da cidade no século XIX.
O casal teve como filho Lahyr Paleta de Rezende Tostes, deputado federal constituinte em 1946 e signatário do Manifesto dos Mineiros contra o Estado Novo.
Pesquisa histórica: Pedro Lorenzo Raggio Neto.
A consolidação política de João de Rezende Tostes ocorreu durante os anos de ascensão de Getúlio Vargas e da reorganização do cenário político brasileiro após a Revolução de 1930.
Durante a década de 1930, João Tostes tornou-se uma das principais lideranças políticas de Juiz de Fora, mantendo relações próximas com importantes nomes da política mineira e nacional.
No pleito de 14 de outubro de 1934, foi eleito deputado federal por Minas Gerais pela legenda do Partido Progressista Mineiro, assumindo o mandato em 3 de maio de 1935.
Sua atuação parlamentar ocorreu em um dos períodos mais conturbados da história republicana brasileira, marcado pela radicalização ideológica, pelas disputas entre forças democráticas e autoritárias e pelo fortalecimento do governo Vargas.
Além da atividade legislativa, João Tostes exerceu relevante influência política através de sua proximidade com Vargas e de sua atuação junto às lideranças mineiras da época. Durante esses anos, a Fazenda São Mateus transformou-se em importante ponto de encontro político entre representantes do governo federal e figuras influentes de Minas Gerais.
O mandato parlamentar foi interrompido em 10 de novembro de 1937, quando o golpe do Estado Novo dissolveu o Congresso Nacional e extinguiu os mandatos legislativos em todo o país.
Apesar da proximidade construída ao longo da década de 1930, os registros históricos indicam que João de Rezende Tostes não acompanhou integralmente os rumos autoritários assumidos pelo governo de Getúlio Vargas após o golpe do Estado Novo, em 1937.
A instauração da ditadura provocou o afastamento entre Vargas e parte das tradicionais lideranças políticas mineiras que haviam apoiado a Revolução de 1930, mas que passaram a defender a restauração das instituições democráticas e do regime constitucional.
Nesse contexto, o fim do mandato parlamentar de João Tostes, interrompido com a dissolução do Congresso Nacional em novembro de 1937, marcou também o enfraquecimento de sua atuação política nacional.
As divergências refletiam tensões mais amplas existentes entre o governo federal e setores das elites políticas de Minas Gerais, especialmente ligados ao grupo de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, tradicional aliado de Vargas nos primeiros anos do novo regime.
Nos anos seguintes, o posicionamento político da família seria parcialmente retomado por seu filho, Lahyr Paleta de Rezende Tostes, signatário do Manifesto dos Mineiros e posteriormente deputado federal constituinte em 1946, durante o processo de redemocratização do país.
Pesquisa histórica: Pedro Lorenzo Raggio Neto.
A Fazenda São Mateus, localizada em Juiz de Fora, foi o principal símbolo do prestígio político e social da família Tostes durante a primeira metade do século XX.
Muito mais do que uma propriedade rural, São Mateus transformou-se em um dos mais importantes espaços de convivência política da elite mineira durante a Era Vargas, recebendo frequentemente autoridades, empresários, militares, jornalistas e representantes do governo federal.
Os registros históricos descrevem a fazenda como uma propriedade de grandes dimensões, composta por 26 quartos, 21 banheiros, 12 salas, varanda com aproximadamente 45 metros, igreja particular com capacidade para cerca de 200 pessoas e extensos jardins ornamentados por palmeiras imperiais.
A grandiosidade da propriedade refletia o poder econômico e a posição social alcançada pela família Tostes durante o ciclo do café na Zona da Mata Mineira.
Durante os anos 1930, a Fazenda São Mateus tornou-se um importante ponto de encontro entre Getúlio Vargas, lideranças políticas mineiras e figuras influentes da vida pública nacional. Em determinados momentos, a intensa movimentação política fez com que a propriedade fosse vista informalmente como uma extensão do próprio governo federal em Minas Gerais.
A relação entre João de Rezende Tostes e Getúlio Vargas foi um dos aspectos mais marcantes de sua trajetória política.
Ao longo da década de 1930, Vargas realizou diversas visitas à Fazenda São Mateus, frequentemente acompanhado de ministros, assessores, militares e familiares. As temporadas presidenciais demonstravam não apenas a proximidade pessoal entre ambos, mas também o prestígio político de João Tostes e a importância estratégica de Juiz de Fora no cenário nacional da época.
As estadias presidenciais recebiam ampla cobertura da imprensa e dos cinejornais, especialmente através das filmagens de João Carriço, responsável por registrar importantes acontecimentos políticos da cidade durante as décadas de 1930 e 1940.
Durante determinados períodos, a intensa movimentação de autoridades transformava a Fazenda São Mateus em uma verdadeira extensão informal do governo federal em Minas Gerais.
Em abril de 1934 ocorreu um dos episódios mais emblemáticos da relação entre Vargas e João Rezende Tostes.
Getúlio Vargas viajou a Juiz de Fora acompanhado da esposa, Darci Vargas, e das filhas para comemorar seu aniversário na Fazenda São Mateus, a convite de João Tostes.
A visita teve ampla repercussão política e social. Os registros históricos apontam que Vargas decidiu prolongar sua permanência na fazenda, adiando o retorno inicialmente previsto, fato interpretado como demonstração da relevância política da cidade e da proximidade existente entre o presidente e a família Tostes.
Durante a estadia, Vargas concedeu entrevista ao Diário Mercantil afirmando que iria sugerir ao Sr. Antônio Carlos a mudança da Capital da República para Belo Horizonte, e o estabelecimento da capital de Minas em Juiz de Fora - declaração que se tornou um dos registros mais simbólicos do prestígio político da cidade durante a Era Vargas.
Em novas visitas realizadas ao longo de 1935, a Fazenda São Mateus consolidou-se como importante espaço de articulação política entre o governo federal e lideranças mineiras.
Durante as estadias presidenciais, ministros, assessores e representantes políticos circulavam pela propriedade, onde eram discutidos temas ligados à administração federal e à política mineira.
Em 1936, Vargas voltou a hospedar-se na Fazenda São Mateus, ocasião em que assinou na propriedade um decreto relacionado à memória dos Inconfidentes Mineiros, episódio frequentemente citado pelos estudos históricos sobre sua presença em Juiz de Fora.
As sucessivas visitas presidenciais ajudaram a consolidar a imagem da Fazenda São Mateus como um dos principais espaços políticos informais de Minas Gerais durante os anos 1930.
Pesquisa histórica: Pedro Lorenzo Raggio Neto.
João de Rezende Tostes permaneceu como uma das figuras mais associadas à memória política e social de Juiz de Fora durante a primeira metade do século XX.
Seu nome continuou ligado à Fazenda São Mateus, às visitas presidenciais de Getúlio Vargas, à aristocracia cafeeira da Zona da Mata Mineira e ao protagonismo político exercido por Juiz de Fora durante a Era Vargas.
Em reconhecimento à sua relevância histórica, o Governo de Minas Gerais sancionou, em 9 de dezembro de 1968, a Lei nº 5.111, que concedeu o nome "Dr. João Rezende Tostes" às Escolas Combinadas do Bairro Ipiranga, em Juiz de Fora. A homenagem foi oficializada durante o governo de Israel Pinheiro.
A trajetória de João Rezende Tostes conecta alguns dos principais elementos da história política mineira do século XX: o ciclo do café, a formação da aristocracia rural da Zona da Mata, a ascensão de Vargas ao poder, as articulações políticas da Era Vargas e a posterior redemocratização do país.
Mais do que um político regional, João Tostes representou uma geração de lideranças mineiras que atuaram na interseção entre poder econômico, influência social e articulação política nacional, mantendo vínculos diretos com algumas das mais importantes famílias políticas e proprietárias de Minas Gerais.
Pesquisa histórica: Pedro Lorenzo Raggio Neto.
Curadoria e digitalização do acervo: Pedro Lorenzo Raggio Neto
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